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Caminhoneiro hoje tem renda próxima de zero; frete de R$ 10 mil dá lucro de R$ 300

05/06/18 09:06

Durante a greve dos caminhoneiros, os manifestantes argumentavam que a atividade de transporte rodoviário era economicamente inviável. Estudo do Instituto de Logística e Supply Chain (Ilos), elaborado a pedido do ‘Estado’, mostra que a situação da categoria se deteriorou bastante desde 2014. Em 2016 e 2017, a atividade trabalhou no vermelho e, hoje, gera renda perto de zero. No acumulado de 2018, a margem de lucro ficou em 3%. Ou seja: após fazer um frete de R$ 10 mil, o profissional ficará com R$ 300 nas mãos após os custos.

Apesar de a atividade ter saído do fundo do poço, quando exigiu margens negativas de até 15% (veja quadro ao lado), a situação do setor ainda é muito delicada, de acordo com Maurício Lima, diretor do Ilos. Além de o frete mal cobrir os custos do caminhoneiro, apesar da melhora da economia desde 2017, o especialista diz que esses profissionais estão endividados por causa do movimento de troca de veículos na época do ProCaminhoneiro, programa de financiamento do governo Dilma.

O transporte rodoviário viveu a “tempestade perfeita”. Graças ao financiamento de caminhões com juro baixo, a frota cresceu no momento em que a demanda por frete despencou junto com a economia, que retraiu 7% em 2015 e 2016. Em crise, as empresas, além de contratarem menos, também reduziram os preços pagos pelo transporte de mercadorias. “O caminhoneiro ficou sem nenhum poder de barganha.”

Diante do baixo retorno da atividade atualmente, os caminhoneiros buscam saídas para continuar trabalhando enquanto os preços praticados não melhoram. Embora seja difícil economizar em combustível – item que pode chegar a quase 50% dos custos em viagens de longa distância, segundo a Ilos –, Lima diz que os motoristas podem recorrer a “gambiarras” para adiar gastos com manutenção do veículo, por exemplo – a despeito do perigo que essa decisão pode representar.

Aperto

A empresa de tecnologia CargoX, que funciona como elo entre transportadores e cargas chegou ao mercado justamente em meio à crise do setor. Hoje, a empresa, que tem 300 mil caminhões cadastrados em sua plataforma, que trabalha no sistema “spot” – ou seja, contratados de imediato, e não por meio de acordos de longo prazo.

Segundo Federico Vegas, fundador e presidente da Cargo X, o atual preço do frete reflete uma relação de oferta e demanda desequilibrada. O executivo estima que mais transportadoras deverão sair do mercado antes de o preço médio do frete voltar a ser economicamente viável. Segundo ele, 30 mil transportadoras desistiram de operar em 2017.

Embora hoje realize se ocupe de atividades feitas por transportadoras, a Cargo X, que já recebeu US$ 35 milhões em investimentos, se define como uma plataforma de tecnologia que visa a aumentar a produtividade do movimentação de cargas. “Hoje, 40% dos caminhões fazem a viagem de volta vazios”, diz ele, lembrando que isso compromete o já quase nulo ganho atual dessa atividade.

O ganho de produtividade, diz Vegas, é especialmente importante em um mercado deprimido como o atual. Além da redução da oferta de caminhões, ele diz que não existirá milagre para o reajuste do preço do frete. Tudo dependerá da retomada da economia. “As empresas tiverem fortes perdas de margem (com a crise). Então, todo mundo está focado em cortar custos, em sobreviver.”

Competição

O caminhoneiro Jaime Tonetti, de 57 anos, é de Jacareí (SP). Mas, durante a greve dos caminhoneiros, parou seu veículo – um MH Volvo financiado, modelo ano 2000 – perto de Fortaleza (CE), para onde transportava uma carga para uma grande cervejaria. Ativo em vários grupos de WhatsApp da categoria, ele se converteu, de forma involuntária, em um dos “cabeças” do movimento na região. Ficou nove dias parado na estrada e só seguiu viagem na última quinta-feira, quando retornou ao trabalho. “Você acha que alguém fica nessa situação por nove dias, se a coisa não for grave?”, questiona. “Paramos por vontade própria. A gente estava com tudo engasgado.”

Filho de caminhoneiro, Jaime trabalha há mais de 50 anos no setor e há 37 dirige o próprio veículo. O dinheiro não dá para pagar as contas. “Tenho sorte de ter casas alugadas e de a minha mulher ter emprego. Porque dinheiro como caminhoneiro não ganho.” Ele explica que a briga por cargas só achata o preço do frete: “É muita galinha para pouco milho.”

Por: João Luiz Garcia (Tiguera)
Fonte: estadão
Foto: Arquivo/EBC



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