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Lembranças e saudades

A vida é mesmo feita de registros. Seguidamente algum fato do presente nos remete ao passado. Somos mochileiros repletos de lembranças e administradores de incontáveis saudades. Uma palavra, um detalhe ou um pensamento são suficientes para nos embarcar num voo, tendo como destino o ontem. De fato, há dias em que somos habitantes mais do ontem do que do hoje.

Olhando para um ramo bento que está aqui no meu quarto, quero partilhar com você que fiz um breve intervalo para redesenhar e atualizar uma cena que jamais esquecerei. Os ramos de oliveira, na minha casa, eram guardados com respeito, assim como muitos ainda o fazem em nossos dias. Quando se levantava um temporal, minha mãe pegava o antigo ferro de passar roupas, enchia de brasas, colocava à janela e queimava ramos de oliveira. A fumaça, cujo cheiro ainda posso sentir em minha imaginação, se perdia em meio ao vendaval. Um misto de fé e proteção invadia nossos corações. A mãe nos ensinou que aquela fumaça afastava os temporais.

Os anos se passaram. O ferro de passar roupa continua lá, mesmo que tenha sido substituído por outro mais prático e mais leve. O advento do botijão de gás praticamente substituiu as brasas do fogão à lenha. Porém, aquela cena jamais conhecerá o envelhecimento. Não era superstição, mas o vento, muitas vezes, se acalmava e o temporal não fazia estragos. A mística fumaça do ramo de oliveira, acreditávamos, subia aos céus ou trazia o céu para mais perto da terra.

Alguns rituais foram perdidos, com o passar dos anos e com a despedida das gerações que nos antecederam. Os cabelos se apressam em ficar brancos, mas o coração continua acreditando que há uma contínua proteção, que alimenta a confiança e que nos aproxima de Deus. Fico feliz só em ver uma árvore de oliveira, assim como tenho uma profunda sensação de paz ao visualizar um ramo bento, em algum lugar de uma residência.

O mundo virtual, com ferramentas interessantes e úteis, tem diminuído o espaço das coisas simples. Ninguém deve ficar somente com a fé que cultivou na infância. O conhecimento está ao alcance de todos, através de muitos meios. Porém, não convém abandonar as humildes experiências espirituais, que proporcionaram tanto alento, em tempos de poucos recursos. Tenho consciência de que o ferro a brasa já não faz parte do mundo doméstico. Porém, todos nós, de um jeito ou de outro, esperamos que os céus nos escutem, que a proteção exista na medida certa e que os ‘temporais existenciais’ não façam muitos estragos. Uma outra ‘fumaça’ pode continuar alcançando as nuvens: a fumaça da oração, da esperança, da fé e do mais genuíno amor. Sempre guardo um ramo bento. Ele não fica longe dos olhos. É emocionante saber que a humilde infância continua inspirando e provocando paz e serenidade.

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