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“Poupam-se cinquenta e três minutos por semana”

Eu sou um dos leitores fiéis e convicto de Saint-Exupéry, o “Pequeno Príncipe”, mesmo não se tratando de uma obra religiosa. Tive excelentes professores que me incentivaram à variedade de literaturas. O autor francês procura nesta obra o sentido da existência humana. Um dado histórico e é bom lembrá-lo antes de um juízo temeroso do autor aqui introduzido, achando que o livro é para adolescentes platônicos.  O “Pequeno Príncipe” foi escrito em 1943. Sim, em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Isso diz-lhe alguma coisa relacionada à história?

Este foi um tempo de tantas feridas e incertezas, um tempo difícil, mas também uma oportunidade que o “essencial que é invisível aos olhos”. Depois de deixar o seu planeta, o pequeno príncipe, uma das figuras que encontra é um estranho comerciante de pílulas.

- Olá, bom dia! – disse o pequeno príncipe.

- Olá, bom dia! – disse o vendedor.

Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.

- Por que vende isso? – perguntou o pequeno príncipe.

- Porque é uma grande economia de tempo – respondeu o vendedor. – Os cálculos foram feitos por peritos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.

- E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?

- Faz-se o que se quiser...

“Eu”, pensou o pequeno príncipe, “se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, andaria devagarinho à procura de uma fonte...”.

Estamos vivendo sob a ditadura do capitalismo em todas as facetas do imaginário popular e coletivo, sob o signo da rentabilidade e eficácia, aproveitamento do tempo, tudo como se estivéssemos aqui, e ontem deveríamos ter feito tudo. Nosso ser está invadido, inflacionado por propagandas para melhorar a vida em todas as dimensões. Datas especiais tais como Natal, Páscoa e o nosso próprio nascimento são relativizadas pelo consumo. Não temos mais tempo para nós mesmos. As coisas para serem compradas e consumidas nos tiram, nos roubaram a possibilidade de uma audição profunda do nosso espaço interior e o discernimento da nossa sede por pílulas que prometem resolver mecanicamente o nosso problema.

O que você faria se todos os dias tivesse cinquenta e três minutos à sua disposição? Repito. Por dia, não por semana como fez o vendedor de pílulas. Quais são as nossas sedes? Onde estão os poços que nos saciam de verdade? O que buscamos nesta vida, de fato? É tão fácil nos apegarmos à ideia de poupar cinquenta e três minutos e sacrificarmos a isso o prazer de caminhar devagarinho à procura de uma fonte. É tão fácil idolatrarmos a pressa e a vertigem neste nosso tempo hipertecnológico e que tem o culto da instantaneidade, da simultaneidade e da eficácia!

A vida parece veloz. A humanidade está cada vez mais tensa e apressada. O mercado nos ilude de maneira surpreendente. Tudo se pode comprar. O comércio de pílulas pulula-se em grandes escalas. O que ainda não compramos? Caro leitor, sentimos que caminhamos devagarinho para uma fonte? Mas onde está a verdadeira fonte que sacia, deveras, nossas sedes e que podemos ir sem pressa, lentamente? Quais são nossas reais e fundamentais sedes da humanidade em novembro de 2019, se comparada com a época da Segunda Guerra Mundial, época do poeta francês acima introduzido?   

Para continuar a reflexão aqui prefaciada, leiamos, sem pressa, o diálogo de Jesus com a Samaritana, no poço de Jacó, segundo São João 4,5-24, e quem sabe usufruindo de 53 minutos diários, que com certeza o mereçamos...

Dom Edgar Ert, Bispo da Diocese de Palmas e Francisco Beltrão

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