O preceito dominical em meio ao surto do coronavírus

"Considerando o sério problema da pandemia que nos assola, experimentamos com tristeza a renúncia temporária ao preceito da participação na Eucaristia dominical, mas simultaneamente redescobrimos o tamanho valor que ela contém. Terminada essa fase crítica, nossas assembleias dominicais deverão tornar-se ainda mais repletas de fiéis, muito mais desejosos do encontro com Cristo e com os irmãos a cada domingo e solenidade, não como uma simples obrigação a ser cumprida, mas com imenso prazer, alegria e gratidão de quem redescobriu a beleza desse encontro na privação dele. "

O caminho quaresmal deste ano se faz de um modo totalmente inesperado. A emergência do coronavírus – cientificamente  chamado “Covid-19” – nos impôs medidas extremas para que não haja o contágio. Em conformidade com os Decretos Federal, Estadual e Municipal, as diversas Igrejas particulares publicaram orientações, comportando-se de maneira responsável. Entre essas orientações, está a suspensão do preceito das Missas dominicais nesse período, deixando facultativa a participação dos fiéis, de modo a evitar a aglomeração de pessoas, como medida preventiva contra a pandemia.

A Constituição Sacrosanctum Concilium ensina que, no domingo, dia do Senhor, “os fiéis devem reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a Palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus” (SC 106). Também o Catecismo da Igreja Católica nos assegura que “a celebração dominical do Dia e da Eucaristia do Senhor está no coração da vida da Igreja. O domingo, em que se celebra o Mistério Pascal, por tradição apostólica, deve guardar-se em toda a Igreja como o primordial dia festivo de preceito” (CIC 2177). A celebração da Eucaristia, a escuta da Palavra de Deus em comunidade, o encontro entre irmãos e irmãs constituem dimensões fundamentais da nossa vida como discípulos de Cristo. Desse modo, os fiéis devem participar da Eucaristia nos domingos e demais dias de preceito, a menos que estejam justificados por motivos muito sérios (Cf. CIC 2181). 

Considerando o sério problema da pandemia que nos assola, experimentamos com tristeza a renúncia temporária ao preceito da participação na Eucaristia dominical, mas simultaneamente redescobrimos o tamanho valor que ela contém. Terminada essa fase crítica, nossas assembleias dominicais deverão tornar-se ainda mais repletas de fiéis, muito mais desejosos do encontro com Cristo e com os irmãos a cada domingo e solenidade, não como uma simples obrigação a ser cumprida, mas com imenso prazer, alegria e gratidão de quem redescobriu a beleza desse encontro na privação dele. 

Neste momento, é clara e urgente a necessidade da oração, de uma relação confiante e filial com Deus Pai, de entrega a Cristo Senhor, de invocação do Espírito Santo, que nos sustenta com o seu sopro de vida. Por isso, esforcemo-nos melhor, nestes dias “especiais”, para rezarmos onde estamos e como estamos: em casa, na família ou sozinhos. Estamos ligados e unidos entre nós e no Senhor, que nunca nos deixa solitários. 

Os sacerdotes, ao celebrarem a Eucaristia sem a assembleia reunida, o farão para todos e assim, todos poderão participar espiritualmente da celebração do sacrifício de Cristo, ressuscitado e presente entre nós. O momento é oportuno para ler e meditar a Palavra de Deus em casa, com a família. É também um momento propício para que os fiéis conheçam melhor e celebrem a Liturgia da Horas, que através da oração dos Salmos, possibilita-nos dialogar com Deus utilizando as suas próprias palavras. A Liturgia das Horas santifica a pessoa no decorrer do dia. A esse respeito, vale considerar a Constituição Apostólica Laudis Canticum, quando nos assegura que toda a vida dos fiéis, em cada hora do dia e da noite, é quase uma leitourgia, mediante a qual eles se dedicam ao serviço de Deus e dos irmãos. Aderem também à ação de Cristo, que com a sua morada entre nós e com a oferta de si mesmo, santificou a vida de todos os homens e mulheres (Cf. LC 8). 

As diversas práticas de devoção – rosários, novenas, meditação da via sacra, entre outras – também são muito recomendáveis aos fiéis, em suas casas, neste tempo. De acordo com o Diretório sobre Piedade Popular e Liturgia, a piedade popular, enquanto uma relidade que tem vida na Igreja e para a Igreja, deve ser valorizada (Cf. DPPL 61). Em comunhão com tantas Igrejas neste mundo afora, onde muitas vezes a celebração da Eucaristia não é possível, experimentamos a escuta do Deus-conosco que nos fala, que se comunica a nós, que continua a reunir a sua Igreja no amor. 

Por Pe. Fabio de Souza Balbino - Doutor em Liturgia pelo Pontifício Instituto Litúrgico Sant’Anselmo de Roma

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